Dois anos após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, produtores rurais e cooperativas estão adotando novas tecnologias e práticas para reconstruir e tornar a produção mais resiliente.
As enchentes de maio de 2024 deixaram um rastro de destruição no Rio Grande do Sul que ainda está sendo contabilizado. Mais de 400 municípios foram afetados, com perdas agrícolas estimadas em R$ 6,8 bilhões. Dois anos depois, o setor está em processo de reconstrução — e muitos produtores estão aproveitando a oportunidade para modernizar suas operações.
Na região do Vale do Taquari, uma das mais afetadas, cooperativas como a Sicredi e a Cotrijal estão financiando a adoção de tecnologias de agricultura de precisão que antes eram consideradas inacessíveis para pequenos produtores. Sensores de solo, drones para monitoramento de lavouras e sistemas de irrigação inteligente estão chegando a propriedades de menos de 50 hectares.
"A tragédia foi terrível, mas ela nos obrigou a repensar tudo", diz o produtor de soja Antônio Scherer, 58 anos, de Lajeado. "Eu perdi 80% da minha colheita. Quando fui reconstruir, decidi fazer diferente."
Scherer investiu em um sistema de drenagem melhorado e em sensores que monitoram o nível do lençol freático em tempo real. "Se vier outra enchente, vou saber com antecedência e posso tomar providências."
A Embrapa Clima Temperado, com sede em Pelotas, está desenvolvendo variedades de culturas mais tolerantes ao excesso de água, em parceria com universidades gaúchas. Os primeiros resultados de campo com soja tolerante ao alagamento foram promissores, com perdas 35% menores em condições de inundação simulada.
O desafio é que a reconstrução está sendo desigual. Grandes produtores têm mais acesso a crédito e tecnologia. Pequenos agricultores familiares, que representam 70% dos estabelecimentos rurais do estado, enfrentam mais dificuldades para acessar os programas de apoio disponíveis.
"O crédito existe, mas a burocracia é enorme", diz a agricultora familiar Maria Teresinha Oliveira, de Venâncio Aires. "Para quem perdeu tudo, preencher formulário é difícil."
O governo estadual anunciou em março um programa de assistência técnica gratuita para pequenos produtores, com 500 técnicos agrícolas atuando nas regiões mais afetadas. A iniciativa é considerada insuficiente por entidades do setor, que pedem ampliação do quadro para pelo menos 1.500 profissionais.